As pequenas atitudes e o futuro do trabalho
São muitas mudanças no mundo corporativo – consequência, obviamente de toda a vida em sociedade – advindas com os últimos acontecimentos mundiais, da pandemia às guerras, talvez aceleradas pelos fatos e pelo desenvolvimento tecnológico, mas elas estavam por vir e fariam parte da nossa rotina mais cedo ou mais tarde. Na pauta estão a resiliência, a capacidade de criar e inovar, de interagir com públicos diversos, solucionar crises, desenvolver competências e se reinventar. Mas as pequenas atitudes têm chamado a atenção dos gestores.
Pequenas atitudes são um conjunto de ações que moldam o perfil das pessoas e são facilmente identificadas pelo “bom dia” dado a todos os que se encontra pelos corredores, pelo sorriso dispensado aos colegas, pela disponibilidade em auxiliar, agradecer, compartilhar créditos, reconhecer, por exemplo. Parecem ficar despercebidas, mas são uma base forte que molda ou dá sustentação ao conjunto de características do profissional.
Este perfil de civilidade vem chamando a atenção das empresas, dos líderes e dos recrutadores. “A civilidade paga”, disse a professora Christine Porath, da McDonough School of Business da Georgetown University, dos Estados Unidos, na publicação do NIH (sigla para Instituto Nacional de Saúde dos EUA). Ela ainda diz que o contrário – a incivilidade – tem um custo alto para as empresas e é contagiosa como um vírus.
É fácil imaginar que custos são esses: incivilidade propicia ambientes tensos e inseguros, afeta não apenas relacionamentos, mas produtividade, desemprenho, criatividade e resultados. Não é difícil ouvirmos de profissionais talentosos que pedem demissão por discordarem da política de relacionamento cultivada em algumas organizações.
O relatório “Futuro das tendências do trabalho 2022 - uma nova era de humanidade”, da consultoria norte-americana Korn Ferry, aponta já no título o que pautará o mundo dos negócios nas próximas décadas: o trabalho que trabalha por todos. O estudo indica sete temas que ganham destaque.
O primeiro deles é a “reinvenção” que aponta que os modelos de negócios continuarão mudando para métodos de produção mais flexíveis com a tecnologia incrementando a produtividade, mas mantendo as pessoas no centro das organizações. As empresas estão mudando seu foco e passarão a selecionar cada vez mais as habilidades importantes para fazerem uma organização vencer em seu mercado.
A segunda tendência é o “pensamento fluido” que deve dominar as organizações com estruturas mais planas de gestão com equipes trabalhando em projetos com objetivos específicos, presencial ou remotamente, tornando as estruturas mais ágeis, flexíveis, conectados e caminhando como um ecossistema. Isso substituirá o tradicional modelo hierárquico.
Em terceiro lugar vem a “produção personalizada” – de tênis a carros e até medicamentos. A tecnologia já adiantou essa tendência com a impressão 3D ou a robótica. Porém, a ideia de remodelar a forma como os produtos são feitos e comercializados depende de um novo pensamento, novas atitudes de vida que permitam movimentos criativos em várias direções. Interessante analisar como as coisas têm um ciclo que se esgota e, neste momento, é preciso quebrar paradigmas – hoje, o paradigma que está sendo quebrado é o da produção em massa iniciado lá atrás na Revolução Industrial que moldou as empresas e seus líderes. Por isso, as organizações precisarão cada vez mais de talentos e isso reforça a tese de que a máquina não substituirá postos de trabalho; apenas fará cada vez mais o trabalho puramente manual deixando ao homem o que ele tem de único, que é a intuição, a criação, a estratégia, a inovação.
“Ampliando o humano com máquinas” é a quarta tendência, em tradução livre, e está em sintonia com as demais na medida em que o papel da tecnologia não é maior do que o humano, mas também nem por isso desprezível. Ela impulsionará as potencialidades humanas conferindo agilidade, dando suporte a projetos. As organizações buscarão profissionais com capacidade de aprendizado rápido, construtores de relacionamento capazes de entender aspectos culturais de transformação, experientes em gestão de mudanças complexas.
O quinto item é “reimaginando o trabalho remoto” e alerta para que as organizações se atentem para o que é trabalho presencial e o que é remoto. E o remoto não é uma opção apenas menos custosa, tanto quanto o presencial não é alternativa mais efetiva. Há situações em que trabalhos feitos remotamente são mais efetivos. Porém, há ainda que se considerar as características pessoais. O remoto não deve ser avaliado apenas em função do trabalho a ser feito, mas de quem o fará. Alguns profissionais tenderão a ser melhores remotamente e isso precisa ser considerado. Assim, não há uma tabela de atividades presenciais ou remotas. E para este cenário, os líderes do futuro serão aqueles capazes de se conectar com pessoas em diferentes canais.
Por fim, o relatório “Futuro das tendências do trabalho 2022” aponta a sexta tendência que pode ser traduzida como “misturas da indústria” que alerta para as alterações de comportamento do consumidor e a necessidade de as organizações pensarem além dos limites da indústria. Aqui entram os medicamentos personalizados, os serviços de streaming que oferecem sugestões personalizadas, o “avatar” que ajuda o cliente nas compras virtuais, só para citar alguns exemplos sobre como os negócios terão de ter flexibilidade para criar produtos, serviços e relações personalizados.
As teorias futuristas sempre podem causar certo receio: como organizações tradicionais ou pequenas empresas conseguirão ser competitivos neste futuro que já é presente? É importante lembrar que as mudanças já estão latentes, outras avançando mais, mas é essencial lembrar que temos hoje grandes executivos que iniciaram a vida profissional ainda na máquina de escrever e que o ser humano tem uma capacidade enorme de se adaptar, criar e avançar. Todos nós já estamos neste futuro. A diferença estará em autoconhecer-se sempre e buscar aprender permanentemente, desenvolvendo as competências através de leituras, cursos, atividades sociais, esportivas, culturais, hobbies e tudo o que agrega nova visão e perspectivas não só ao profissional, mas ao ser humano enquanto cidadão do mundo.

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